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*Flávia Souza

Quem somos nós? Vítimas? Em algum momento, fomos sim. Hoje, somos apenas sobreviventes e vitoriosas. Passamos por tantas violências pelo simples fato de sermos mulheres e continuamos aqui, lutando para que esse cenário mude. Não queremos mais ver o Brasil em quinto lugar no ranking mundial de feminicídio, como mostra o Mapa da Violência 2015.
Em 2013, quando a pesquisa foi feita, 4.762 mulheres foram mortas por familiares no Brasil, um número equivalente a 50,3% de assassinatos, sendo que em 33,2% destes casos, o crime foi praticado pelo parceiro ou ex. Essas quase 5 mil mortes representam 13 homicídios femininos diários naquele ano.
Cinco anos passaram e a situação não mudou. Um total de 503 mulheres brasileiras são vítimas de agressão física a cada hora. Entre as que sofreram violência, 52% se calaram e apenas 11% procuraram a delegacia da mulher.
Um total de 40% das mulheres acima de 16 anos já sofreu algum tipo de assédio. Mais de cinco milhões sofreram assédio em transporte público e aproximadamente 20 milhões de mulheres já receberam comentários desrespeitosos nas ruas.
O número de mulheres que foram beijadas ou agarradas sem consentimento supera os dois milhões e 10% das mulheres já foram ameaçadas de violência física. As que foram ofendidas sexualmente contabilizam 8% das mulheres e 4% receberam ameaça com faca ou arma de fogo. A quantidade de mulheres que sofreram espancamento ou tentativa de estrangulamento ultrapassa um milhão e 1% levou pelo menos um tiro.
Esses números, que apontam apenas dois tipos de violência – a física e a sexual, mostram que a luta deve ser reforçada diariamente. Prestes a celebrarmos o dia 8 de março, data em que o mundo comemora as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres ao longo dos anos, ver nosso País inserido neste cenário descrito nos primeiros parágrafos é assustador.
Presenciar pessoas, inclusive nos meios de comunicação, defendendo ou justificando agressores e criminosos é vergonhoso. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontam que o Brasil registrou um estupro a cada 11 minutos em 2015. Calcula-se que estes sejam apenas 10% do total dos casos que realmente acontecem.
Precisamos trabalhar a cultura do falar, do ouvir e do não julgar a vítima, algo que nós mulheres chamamos de sororidade. Precisamos desenvolver empatia e companheirismo com as mulheres que gritam em silêncio e que choram por socorro.
A dor da violência fica latente, acima de tudo, na alma da mulher. Só quem sente essa dor entende o que ela significa e os estragos que faz. Por isso, temos visto tantas celebridades hollywoodianas vestindo preto em eventos de gala como forma de protesto.
Essas mulheres gritam pelo fim da violência que também sofrem nos bastidores glamourosos do mundo dos famosos, porque a violência de gênero não vê cor, classe social ou famosidade.
É revoltante que em nosso País, uma a cada três mulheres já tenha sofrido algum tipo de violência. Este não é o lugar que quero para as minhas filhas. Esta não é a situação que desejo que elas passem. Sei que não posso evitar que tenham experiências ruins, mas seguirei lutando para que este cenário mude e creio que terei resultado, porque não estou sozinha nesta luta. Ela é de todos e por todas.

 

  • A autora é jornalista e gestora da Ong Hella