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– Artigo escrito por Taís Costa Bento*

Chegamos a terceira e última parte da trilogia que iniciou falando do feminicídio da estudante Remís Carla Costa e esclareceu sobre as agressões silenciosas existentes, antes do assassinato contra mulheres acontecer de fato. A universitária passou, em silêncio, por um relacionamento abusivo. Ninguém percebeu, até que seu namorado lhe tirou a vida. Neste texto, apresentaremos como acontece o ciclo de brutalidades pelos quais muitas mulheres passam, de acordo com o explicado pelo Relógios da Violência.

A psicóloga americana Leonor Walker identificou três fases dentro do relacionamento abusivo. Elas ocorrem em um ciclo repetitivo, o que ajuda a manter a mulher como vítima desse companheiro/agressor. Conhecido como o ciclo da violência, ele divide-se em: Aumento da Tensão, Ato de Violência e Reconciliação (ou Lua de Mel).

Na primeira fase, do Aumento da Tensão, o agressor está constantemente tenso e irrita-se com coisas insignificantes. Ele tende a humilhar a vítima, fazer ameaças e destruir objetos. A mulher, por sua vez, sente-se aflita e tenta acalmá-lo, nessa fase os sentimentos são muitos e passam pela tristeza, medo e ansiedade. É comum que a mulher tente ocultar o fato de outras pessoas e negar para si mesma que aquilo está acontecendo com ela. Corriqueiramente procura  por justificativas para o comportamento violento do companheiro e chega a se achar culpada, justificando que ela pode ter feito algo de errado para aborrecê-lo.

Na segunda fase que ocorre o Ato de Violência. Toda a tensão acumulada na fase anterior se materializa em violência física, psicológica, moral, patrimonial ou sexual.  Há a “explosão” do agressor, que está fora de controle e altamente destrutivo, enquanto à mulher é tomada por um sentimento de paralisia, podendo sentir medo, solidão, dor, vergonha de si mesma, impotência, passando por uma grande tensão psicológica. Nesse ponto, a mulher pode buscar por ajuda. Procura por um distanciamento do agressor, com medidas que podem ir desde denúncias e abandono, até mesmo ao suicídio.

Porém, quando passada essa fase, entra-se na terceira, a Reconciliação, também conhecida como Lua de Mel. É nessa fase que o agressor se mostra arrependido, carinhoso e amável, buscando uma reconciliação com a vítima. Em muitos casos, a mulher acredita que aquela violência foi apenas um episódio e que o companheiro pode mudar, ou nunca irá repetir aquilo, uma vez que ele se demonstra remorso e se comporta bem, sendo um período calmo no relacionamento, que ajuda a consolidar a relação de dependência entre vítima e agressor.

Infelizmente, logo a tensão volta e, com ela, a primeira fase.

Muitas mulheres acabam presas nesse ciclo vicioso e violento, muitas vezes sem perceber ou compreender como aquilo é destrutivo para sua saúde e bem-estar social, físico e psicológico. Vivemos em uma cultura onde ainda é muito disseminada a ideia de que a mulher deve estar em um relacionamento e ter como sua responsabilidade a duração e manutenção. Isso é mais um peso na balança que a mantém presa ao agressor, fora todas as outras manipulações e conflitos psicológicos pelos quais ela já passa.

A complexidade de todas as formas de violência, bem como do mecanismo do relacionamento abusivo, deixam claros como não se trata apenas de uma decisão de “ficar” ou “sair” do relacionamento. Não se trata de uma decisão simples como muitos fazem parecer, pelo menos não para a maioria das mulheres.

Ainda mais quando àquelas que resolvem se afastar do agressor se deparam com a morte, como foi o caso de Remís Carla. Entretanto, isso não quer dizer que as mulheres devem se calar diante das agressões e continuarem em um relacionamento tóxico. Não! Muito pelo contrário, elas devem erguer suas vozes o mais alto possível e não deixarem-se calar por um homem que só lhe faz mal! A diferença é que, quando uma mulher não encontrar sua força, é preciso respeitar e ajudá-la a dar esse passo.

Quando conseguimos nos afastar das ideias pré-concebidas e erradas de que “a mulher gosta de apanhar”, ou “está com o agressor porque quer”, somos capazes de enxergar que ao fundo muitos outros fatores influenciam em sua tomada de decisão. Assim podemos estender a mão para ajudar, ao invés de julgar, e buscar pela justiça que tanto desejamos.

 

  • A autora é psicóloga e uma das gestoras da ONG Hella