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Júlia Marques
– Psicóloga –

Em 25 de novembro de 1960, três irmãs conhecidas como “Las Mariposas” foram mortas de maneira brutal pelo ditador da República Dominicana. O motivo: por se opor às práticas violentas e abusivas do regime ditatorial. Por esse fato, esta data virou um marco do combate à violência contra às mulheres.

Em 06 de dezembro de 1989, no Canadá, um homem entrou armado em uma sala de aula de uma escola politécnica e mandou que saíssem todos os homens.  Então matou 14 das 28 mulheres que ficaram, e por fim tirou a própria vida. Com ele foi encontrado um bilhete no qual dizia o quanto as feministas tinham acabado com sua existência.

Após o ocorrido, um grupo de homens resolveu mostrar ao mundo que não compartilhava desse pensamento e atitude. Desta forma, a data se tornou um marco, sendo batizada como o Dia da Conscientização de Homens no Combate à Violência contra Mulheres.

Os anos passaram, mas não foi a instituição desta data que deu fim à violência de gênero. Em 2015, uma moça grávida foi assassinada pelo namorado na Argentina. Essa barbárie, abriu caminho para uma campanha nomeada “Ni Una Menos” (Nem Uma a Menos). Porém, sua maior repercussão aconteceu quando em 2016, outra morte brutal de uma jovem que foi violentada por dois homens deixou as pessoas com o ensejo de mobilizarem-se a fim de ajudar a mudar essa triste realidade.

Assim, um grupo de mulheres argentinas fizeram greves para mostrar sua insatisfação. Mais do que isso, elas queriam mostrar que não se calariam mais. Uniram-se e a campanha iniciada tomou proporções internacionais.

No Brasil tivemos casos igualmente graves, como o da jovem de 16 anos que foi estuprada por mais de 30 homens. Ela foi filmada e ainda assim desacreditada. Lembramos ainda o da menina de 12 anos, que filmou seu próprio estupro para que acreditassem nela.

Campanhas foram lançadas com o apoio das redes sociais para ampliar a discussão, mostrando as caras de uma realidade brutal, com dados que não perdoam. Mas as pessoas não querem nem ouvir falar sobre isso. Continuam empurrando para debaixo do tapete da sociedade um tema tão complexo, atual e extremamente importante.

Precisamos falar sobre a violência contra às mulheres. Precisamos falar sobre a violência de gênero e precisamos falar agora. O Brasil é o 5º de um ranking feito pela ONU Mulheres, em 2015, sobre países que mais matam mulheres, sendo as negras às maiores vítimas de violência.

Até o final desse mês, devem sair novos dados da Campanha nomeada no Brasil como “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”. Os números não mentem e a realidade muito menos. Todas temos uma história para contar. Se puxarmos em nossa memória, com certeza aparece. Se não foi com você, foi com alguém muito próxima.

Semana passada, a ONG foi convidada para falar no programa Hora Geral, da TV Ilha do Sol, com o atencioso repórter Douglas Gonçalves. Fui representar nossas ideias e ideais. Tantas coisas que foram ditas e tantas outras para dizer, mas queremos aqui deixar um espaço para reflexão, para conversa e para mudanças.

Algumas datas surgem para que lembremos e para que possamos falar. Mas,  muito mais do que datas especiais, são as atitudes do dia a dia, as conversas e o reavaliar de nossas ações diárias. São essas atitudes que vão culminar em alguma mudança real para que toda essa violência seja, senão excluída da sociedade, ao menos combatida com mais atenção.

E o que os homens podem fazer então? Qual o papel que podem ocupar dentro desse movimento? O primeiro passo é que ele reconheça que existe violência contra gênero sim. Que reconheça que a nossa sociedade machista e patriarcal continua estuprando e violentando mulheres pelo simples fato de serem mulheres.

Eles também precisam entender o local de fala das mulheres, perceber o quanto é significativo para a mulher falar sobre aquilo que ela vivencia e que sua representatividade é extremamente importante, pois deixa de ser uma outra pessoa falando sobre a mulher e sim a própria mulher.

Os homens podem e devem continuar falando a favor dessa causa, mas entendendo que na presença da mulher, ela é quem detém o local de fala. Estamos nos fortalecendo e está acontecendo em todos os lugares, nas empresas, na política, nas ruas (…). Colocar os ouvidos em ação e escutar atentamente e verdadeiramente o que as mulheres tem a dizer.

É preciso que mudem suas atitudes frente a momentos rotineiros, como só enxergar uma mulher como dona de casa ou como alguém que só sonha em casar e ter filhos, sempre numa posição subalterna e submissa. Falar para o amigo que manda piadas inoportunas, sexistas e que ofendem a mulher, que não é algo legal ou engraçado, que isso é machismo.

Eles também precisam parar de rotular, de dizer e pensar que a mulher que subiu de cargo na empresa dormiu com o chefe, pois isso é subestimar a inteligência da mulher. Precisam parar de pensar que se a mulher está bêbada, e por isso parece “fácil”, então podem fazer o que quiser com ela. Isso é estupro.

Os homens precisam também parar de aceitar ou de se calar perante as atitudes de outros homens que cometem barbaridades contra mulheres. De justificar dizendo que são apenas meninos inconsequentes, mesmo tendo mais de 20 anos, enquanto uma menina de 13 é “oferecida” e sabia bem o que queria.

Precisam entender de uma vez que a roupa que a mulher usa não diz nada sobre o que ela quer ou não fazer, e que somos mais do que um pedaço de pano. Podemos ser o que quisermos e estar em todos os lugares, de igual para igual, sempre.

Nós, da ONG HELLA, temos o maior orgulho de estar nessa luta, mostrando nossa cara para dizermos que não vamos admitir violência. Vamos lutar por um mundo melhor, disponibilizar informações, orientações e fazer o possível para que possamos prevenir atos violentos antes deles acontecerem. Mostraremos que juntas somos mais fortes e que esse combate é uma eterna desconstrução de um padrão imposto por uma sociedade que não queremos mais e por não querermos, não aceitaremos e iremos à luta.

Estamos juntas. Somos, antes de tudo, pessoas que querem um mundo melhor e estamos aqui de braços abertos para receberem aquelas que, assim como nós, acreditam que podem fazer a diferença.